sábado, 3 de julho de 2021
Carona - Ela
quinta-feira, 24 de junho de 2021
Carona - Ele
- Vai descer?
Ele perguntou, com medo da resposta, fosse positiva ou negativa. Positiva, ela entraria em seu carro, sentaria ao seu lado, muito parecido com o que faziam nos últimos anos. Com algumas sutis e profundas diferenças. Caso fosse negativa, ele sentiria que a distância já se empunha. Ele não sabia o que ia doer mais.
Ela olhou nos seus olhos. Era impressionante o quanto aqueles olhos falavam, o quanto ela era translúcida em suas emoções. Aquele olhar já o hipnotizou algumas vezes e já havia fulminado algumas outras e tinha um brilho lhe deu esperança...por um tempo, uma mini eternidade.
Ela estava pensando se aceitava ou não. Ela pensou em não aceitar. A distância já estava presente.
- Claro.
Ela respondeu, como se não tivesse ficado em dúvida. Sorrio sem graça.
Faço uma piada? Melhor não.
- Como você está?
O cheiro dela. Teve certeza que nunca mais ia esquecer cheiro dela. Ela não usava perfume, cismava que tinha alergia, mas na verdade, gostava de hidratante e isso fazia com que sua pele tivesse sempre um cheio suave.
- Bem, e você ?
- Bem.
Mentiu, sabendo que nenhum dos dois estavam bem. Nada estava bem. Decidiram, dias antes, não ser mais juntos. Ele sabia que ela tinha toda a vida pra viver, ele sentia que não poderia oferecer tudo que ela precisava, gostaria e merecia. Ela era raio de sol, luz da lua, iluminava qualquer ambiente, não poderia se apagar por causa dele. Ele já não irradiava para acompanhá-la. Ou pelo menos sentia assim...
- Te deixo no ponto...
Ela olhou com leve sorriso nos lábios, ele pensou em fazer piada, mas teve receio de ser mal interpretado. Era Ela. Falavam sobre tudo, as maiores besteiras e os maiores absurdos, as melhores declarações e até palavras pesadas que doíam em ambos. Melhor manter à distância das piadas também.
- Ah tá, obrigada!
Claro que a deixaria no ponto, onde mais? Tinha feito isso nos últimos 5 anos. Será que isso vai deixar de ser familiar? Será que teria que mudar de horário para não encontrá-la? Ridículo! Ele quase falou em voz alta.
Ela estava com a blusa verde. Ela ficava linda de verde. E aquela era a blusa do primeiro encontro. Ele lembrava, por que havia repassado todos os momentos durante o fim de semana. Será que ela colocou de propósito? Provavelmente não. Ela era distraída demais. Se bem que ela sempre pensava nos detalhes. Ela colocou de propósito. Ela sabia ser bem antagônica, a mais distraída e mais perspicaz, a mais doida e a mais sensata, a mais menina e mais madura, a mais sexy e a mais palhaça. Ela merecia mais... Era só o que conseguia pensar.
Que bosta! Estamos os dois em silêncio. Pra que ofereci a carona? Pra criar climão? Pra me aproximar? Será que ela pensa que quero me reaproximar? Puxa um assunto...
Olhando pra ela, na verdade, esses pensamentos nem importavam, foi bom vê-la, saber que podiam conviver. Saber que mesmo com a mudança do que ambos eram um pro outro ainda havia algo. Algo que eles ia ter que reformular, redescobrir, mas algo e era bom ter algo ainda vivo com ela. Sentir seu cheiro, olhar em seus olhos, vê-la sorrir mesmo que sem jeito pela situação. Acabou! Ela merecia ser feliz.
Chegamos? Já?
- Até. Obrigada.
- Até, bom trabalho.
- Obrigada!
Despedida rápida. Ela saiu do carro sem olhar pra trás. Colocou o fone no ouvido. A fuga dela era a música,. Ele sabia. Sabia muito sobre ela. Mas não tinha ideia de como ela estava lidando com tudo. E por um instante ele lembrou o porque se apaixonou tão rápida e intensamente por ela. Por que ela era toda a intensidade e ternura que ele desejava.
Demorou à andar com o carro pensando se haviam tomado a decisão certa. Era só o que pensava nos últimos dias. Mas ambos sabiam que era.