terça-feira, 15 de setembro de 2020

Escalada

Como faz pra se deixar amar de novo?
Como faz pro coração entender que outra pessoa pode ocupar?
Mesmo que ele, agora, esteja vazio.
Sabe quando você foi muito amada, viveu intensamente momentos bons ao lado de uma pessoa, aquele amor que fazia você se sentir preenchida?
O amor que lhe declamava e sentia era palpável, quente, tinha cheiro, gosto.
E a gente passa a não aceitar menos.
Menos amor?
Eu sei o que é amor. Eu sei amar. Eu sei ser amada.
Sabia.

Eu fui no topo do que há pra ir.
Eu fui ao Chuí e ao novo extremo norte do país.
Eu estive no Everest, escalei os Alpes.
Eu senti o ar rarefeito, escalei com peso nas costas.
Às vezes tinha mantimento e quando não tinha, não sentia falta.
Estava repleta, completa.

Eu olhei o mundo de cima.
Eu vi gente congelar no caminho.
Eu senti o calor da chegada, mas também senti o frio do fim.
E se escalar não for do mesmo jeito?
E se o ar não faltar?
E se o coração não estiver cheio?
E se for pouco?
Se não foi o suficiente?
Se escalada machucar?
E se eu não chegar no topo de novo?

domingo, 6 de setembro de 2020

o pra sempre, sempre acaba...ou se transforma.

Até hoje dizem que adolescentes vivem tudo de forma intensa, e acham que tudo é pra sempre, como se, quando adultizamos, isso deixasse de ser a nossa realidade, como se entendêssemos magicamente a finitude das coisas.

Depois da adolescência, daí sim que vem grandes rompimentos, quebras, perdas, fins.

Fosse assim, caso compreendêssemos a eternidade juvenil das coisas, não viveríamos relacionamentos ruins, lidaríamos melhor com términos, finitos e perdas. Mas não. As remoemos e quando não fazemos isso sozinhos, não raro temos ajuda para nos cobrar os "pra sempres" que acabam.

A gente romantiza tudo. Amizades, romances, trabalho, pessoas, amores e até decepções. Essa parte de romantizar as decepções é um pouco bizarro se você pensar que estamos romantizando coisas que não nos fazem bem.

Se você já terminou um relacionamento e alguém ficou cobrando os porquês e a volta você sabe o que estou falando, Às vezes, infelizmente e humilhantemente, a própria pessoa.

É como se, basicamente, não importasse a razão, que pode até ser mais de uma, os sentimentos, que podem acabar, as decisões, que sempre são difíceis de serem tomadas. O que importa é que se as pessoas, externamente, idealizavam aquele relacionamento e por isso, também, ele não pode acabar assim, né?

Daí as pessoas começam a tratar com "vai passar", "vocês vão se acertar" ou como se tudo fosse uma fase e temporário, como se a gente não pudesse optar não querer mais pessoas na nossa vida, somente porque elas ficaram tempo demais lá ou uma delas não superou sentimento e espalhou isso aos 4 ventos ou, o pior dos motivos, as pessoas, externas à essa relação, querem, porque idealizaram aquele relacionamento.

Sabemos que cada relacionamento é único, formado por dois universos distintos e infinitos e por isso, o que funciona para uma relação pode não funcionar para outra. Mas em se tratando desses infinitos as vezes eles não conversam mais, e ok. Finito.

E quando você está num relacionamento que todos acham perfeito, mas só a gente sabe o que passou e as pessoas ficam dizendo você tem que relevar, perdoar, pensar no amor, pensar em tudo que foi vivido, quando, em verdade, você pensou e essas foram as razões do rompimento?

E nem precisava mais pensar naquilo, revisitar aquelas vivências que nem sempre são leves, suaves e coloridas. Você superou, a vida ajeitou, colocou tudo nos lugares, sentimentos, pessoas, relevâncias, a vida seguiu e não tem volta. Está certo no coração que não tem volta, não precisa revisitar sentimentos ou decisões, porque elas já foram tomadas. E normalmente isso já é bem difícil sem ninguém cobrando ou indagando.

E quando nos questionam tanto até acharmos que a culpa de algum jeito também é nossa? E se for, normalmente é também, porque num relacionamento de duas pessoas a probabilidade de ambas errarem é grande. Erramos, seguimos, ok. Seguimos.

Engraçado como as pessoas dizem pra você superar, mas não se preparam para o fato de você de fato superar. Quando você supera, a julgam insensível, "superou rápido demais", "vai ver nem amava".
E por que isso? Porque romantizam e idealizam inclusive as relações alheias, sejam por seus próprios vazios, sejam por seus próprios incompletos e eventual projeção "a grama do outro é sempre mais verde".

E se eu simplesmente não quiser mais uma relação? Por que as coisas não pode simplesmente acabar?

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