sábado, 3 de julho de 2021

Carona - Ela

-Vai descer?

Essas palavras são mágicas quando você mora numa ladeira. Mas ela conhecia aquela voz. Aquela voz tinha lhe dito as últimas declarações de amor, e também as palavras que mais lhe doíam. Os últimos "eu te amos" e tudo mais que lhe fazia ferver, assim como "não dá mais" "não somos mais felizes juntos".
Essa voz!

Ela virou, eles se entreolharam e durante 3 segundos, olho no olho, ela teve dúvida se aceitava a carona. Somos civilizados. Ele ofereceu. Por que não aceitaria? Melhor não entrar nesse carro, nenhum dos dois aguentariam. Pra que forçar a proximidade física? Por que não aceitar?

- Claro!

Sorriso forçado, sem graça.

- Como vc está?
Ela ficou sem resposta, respirou fundo e ele fez o mesmo. Um piscada mais demorada. Ela sabia o que significava. Ele ia falar do seu cheiro, que tinha gostado ou que estava incomodando pra implicar. Ele não disse nada.

- Bem, e vc?
- Bem.

Ambos mentiram.

A magia de ser vizinha do seu ex é que você pode encontrá-lo com uma frequência assustadora, e você nunca estará preparada para este encontro.

- Te deixo no ponto...

Não fala nada sobre a ambiguidade dessa afirmação, para não ser íntima, não é momento, não terá mais esse momento. Nenhum momento. Acabaram os momentos, por que você está pensando nos momentos?

Eu sabia. Não devia ter aceitado.

- Ah tá, obrigada!

A familiaridade é algo assustador, você está ali, aquela pessoa tem tudo sobre você dos últimos 5 anos. Seus choros, suas mágoas, sua rotina, seus desabafos, suas piadas sem graça, seu esforço para fazer dar certo, suas risadas, suas lutas e suas desistências, seus momentos bons e ruins, íntimos e supérfluos.

Que idiotice aceitar essa carona. Que silêncio constrangedor. Ele ainda usa o perfume que eu dei. Seria o cúmulo da falta de educação não ter aceitado. Criatura, você já ta dentro do carro.

O carro para.

- Até. Obrigada.
- Até, bom trabalho.
- Obrigada!

Ela coloca o fone de ouvido, dá o play sem escolher música. Estava sem ar. Fazendo cara de folha seca. Não podia criar um situação de uma simples carona. Simples carona. Era uma simples carona? Agora era. Fim.

Fim?

Ele haviam se despedido antes, foi doloroso, à despeito de ser correto. Demorado. nenhum dos dois queria de fato ir. Mas, em verdade, já tinham ido há bastante tempo.

"How do I live? How do I breathe?"

Meu Deus!

Ela fica olhando o carro se afastar. Aquilo era cena e uma novela mexicana muito ruim. Era muito previsível.

"When you're not here I'm suffocating"

Olá, lágrimas, tudo bem? Já por aqui? Nem faz tanto tempo assim..."I want to feel love, run through my blood, Tell me is this where I give it all up"?

- Foda-se.

Ela falou alto, a pessoa no ponto do ônibus não entendeu nada. Ela olha pro outro lado.

Viva la México! Ela pensou...

Sam Smith não dá trégua. Ela se permitiu sentir.

"For you I have to risk it all, 'Cause the writing's on the wall"

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