Ah...eu sou carioca!

Comecei dizendo, mas poderia não fazê-lo pelo que vou descrever, você ia sacar.
Então, pra começar, falamos gírias, inventamos, e elas não fazem nenhum sentido ao ouvinte incauto. Quase um dialeto. Mas acho que isso existe em qualquer lugar.
Demorou? Partiu? É nós, falado com bastante X. Sim, não tem, mas substituímos o S sempre que podemos, mesmo sem precisar.
Carioca é bairrista e metido à superior. Pela visão do carioca, esta seria a melhor cidade do Brasil, quero dizer, do mundo. Ninguém, além dos cariocas, podem falar mal da cidade. Mas eu... nós a massacramos constantemente em redes sociais e conversas de bar, dentro de casa, em palanques, esquinas, em pontos de ônibus quando eles não param, ou com sorte dentro do busão lotado.
Xinguem nossa mãe, mas não confunda Méier com Tijuca. Grajaú com Tijuca. Vila Isabel com Tijuca...na verdade o problema é a galera da Tijuca mesmo.
Tijuca é um vale cercado de favela que se acha zona sul da zona norte, qualquer habitante dali já usou essa frase pelo menos uma vez na vida, mas não por que tem praia e sim porque os valores dos imóveis são similares aos valores da zona sul mesmo.
Barra da Tijuca é a parada da galera que submergiu faz pouco tempo, então tem muito dentista, jogador de futebol, sub-celebridade, e a galera que ainda não banca Zona Sul. esse bairro tem a maior quantidade de shoppings da cidade e, sim, isso diz muito sobre eles, e não ouse, chamar a Barra de zona oeste, porém é, tanto quanto Campo Grande e Santa Cruz.
A Zona Sul se resume em, bairros de pessoas muito idosas e galera que vende sexo, bairro dos artistas globais e bairro de ricos clássicos que vieram nas caravelas.
E nenhumas dessas regiões está imune da criminalidade e das favelas. Eu posso dizer que moro em São Conrado e morar em favela de boa.
Ah, você vai achar que eu esqueci de falar sobre a Baixada Fluminense, porque é assim mesmo, esquecemos que existe, e estava falando de carioquices, e não fluminensices, mas valem as seguintes menções: A baixada é comumente esquecida principalmente pelo poder público, exceto em época de eleição. A Região Serrana usamos para reclamarmos de frio quando vamos lá e ficamos com medo de que as enchentes a atinja. Dali apreciamos suas calcinhas e cervejas. A Região dos Lagos utilizamos para férias, feriados e ter casa invadida.
Bar temos de todos os tipos. Botecos, Pés sujos, Cobais, Estilosos, da moda, das antigas, Baixos, Altos, Distribuidoras e Depósitos. Somos beberrões. Temos redutos de bares em quase todos os bairros, onde cariocas e turistas se reúnem para beber e curtir o fim de semana que é celebrado toda sexta-feira...e quintas, quartas, terças, segundas...
Mas as sextas-feiras tem sabor especial. Elas são esperadas desde às 20h do domingo. Quando chega quarta-feira o carioca já diz que é quase sexta e na quinta já tem a pré-sexta então já é motivo pra comemorar e os bares da cidade já ficam lotados.
Dia de perdido do Rio de Janeiro é quinta-feira, mermão. Sexta já está manjadíssima.
Malandragem, temos de sobra. Todo carioca se acha malandro. Algumas vezes não sabemos usar essa malandragem, mas adoramos dizer que a temos. A gente se acha super esperto, malandro e descolado. Mas elegeu os Bolsonaros, que não fazem absolutamente nada de produtivo, nem mesmo pelo Twitter, assim como mantemos todo o clã Picciani na ativa, e os Brizolas que já não são os mesmos e não prezam mais pelos valores de seu patriarca.

Aqui, elegemos, pastor incompetente, também, e quase elegemos corrupto que acreditávamos ser melhor que ex-juiz, porque de fato era. Visualizou? Sim, essa é nossa cena política.
Não posso esquecer de dizer que matamos vereadores, opositores e quem estiver incomodando as pessoas que mandam na cidade. Mas isso nem é exclusividade nossa. Infelizmente.
Pagamos caro de passagem de busão, alguns sem ar condicionado e tá de boa. Somos frequentemente passados pra trás por políticos, paulitas...mas ainda assim, nos achamos espertos com turistas. E isso não é, necessariamente, uma característica positiva.
Sobre o metrô, sempre lotado, galera da linha 1 se acha superior, finge de educada anda rápido pra sentar. A galera que entra na Central não se faz de rogado e sabe que a viagem é longa e sentar é luxo...correm sim, derrubam velhinhas, chutam filhotes de cachorros, cospem da cara de bebê, fingem que estão dormindo, ficam na porta, esperam pela freada brusca (famoso: ô minha marmita), e reclamam, mesmo sabendo que é melhor frear do que bater.
Praianos. Somos aquáticos em nossa maioria. Fazemos festa, aplaudimos o pôr-do-sol, fazemos lual, ano novo, aniversário, quando tem e quando não tem nada pra fazer, vamos à praia. Biscoito Globo e Matte com limão que vendem na praia são algumas de nossas maiores relíquias. Mas temos também camarão temperado com água de mar e vendedor de esfiha vestido de árabe. Temos tantas praias que nem sei...nem todas próprias para banho. Sim, porque, para quem não sabe, jogamos nosso esgoto lá. Genial!
Conhecemos o flanelinha e o cara da barraca de aluguel de cadeira e guarda-sol. E quando não os conhecemos agimos como se conhecêssemos e tudo certo.
Essa é a dinâmica.
A gente vai de chinela pra shopping, moramos aqui mas não visitamos nossos pontos turísticos, lotamos calçadão de Madureira e Saara. Sim, temos nosso próprio Saara, que além de nos fazer passar calor, derrete o dinheiro dos nossos bolsos.
A gente grita "bandido bom é bandido morto", mas como 22% da população da cidade é favelada, e tinha gente que não queria fazer distinção entre bandido e inocente, ia morrer um mucado de gente.
Se fecha um cinema, vira igreja ou farmácia, basicamente IURD e Pacheco, respectivamente. Então, só temos cinema em shoppings e fingimos que isso é legal por que é mais seguro e tem praça de alimentação, mas na real fomos forçados a não ter outra opção.
Nossa cidade é quente, alguns dizem, solar. Todos sabem, mas nossa frota de ônibus ainda não é toda climatizada...sugiro linha 301 e 302 Rodoviária - Barra da Tijuca e 410 Gávea - Grajaú.
Não sabemos dirigir. Mesmo os que tem carteira de habilitação devidamente obtida junto ao Detran/RJ.
Temos um jeito único, selvagem, egoísta, imprudente, apressado e negligente de circular pela cidade. Seja a pé, carro, moto, busão, bonde, bicicleta, skate ou carrinho de rolimã. Faz parte do nosso charme.
Nossas crianças perdem aulas por causa de tiroteio. E quando já estão lá, têm que se abaixar pra evitar uma "bala perdida".
Ah...as famosas "balas perdidas", moda nos anos 2000, agora quase não a chamamos mais assim por que tudo é culpa da polícia. Não importa muito a origem do projétil, perícia, trajetória, ângulo, a culpa é sempre da polícia que pelo jeito é a única que atira em comunidades.
Na Uruguaiana, feira de Acari e outros lugares até mais formais e em endereços centrais, antigos e nobres da cidade, mercadorias são produtos de contrabando, "tombo" e tá tudo bem também...todo mundo sabe e ninguém vê. Especialidade de carioca.
E sobre o "tombo", que basicamente é produto rouba de carga, mas que chamamos assim, carinhosamente, para amenizar o fato de que estamos receptando coisa roubada, e, o que o Código Penal não vê, ele não sente.
Nossa cidade é violenta, queremos medidas enérgicas e ainda assim conseguimos curtir a Lapa. Torcemos por escolas de samba que são basicamente reduto de bicheiros, gostamos quando eles falam de corrupção chocados e indignados. Nos representa. É um a poesia em forma de hipocrisia. Ou será uma hipocrisia em forma de poesia???
Somos apaixonados por futebol e nos dividimos entre os que assumem que são flamenguistas e os que fazem parte da torcida arco íris, que não tem coragem de assumir seu coração rubro-negro.

Temos os melhores bailes funks, porque o funk, como popularizou pelo mundo, é nosso. (às vezes nem é, mas eu disse que eu era carioca, vou puxar a sardinha pro nosso lado). Fazemos baile no Jóquei e debaixo de viaduto. E o Rock In Rio também é nosso é que recebe Anitta e Metallica, Slipknot e Ivete e é, basicamente a única época do ano que os meios de transporte funcionam.

Ah não, pera, os transportes funcionam no carnaval também só o que não funciona é a prefeitura.
Trocamos Saraivas por Dolce Gabbana, mandamos retirar Habibs de shopping da zona sul pra não correr o risco de popularizar demais o ambiente. Assim como, não deixamos ter loja de departamento nos shoppings da zona sul e Barra da Tijuca.
- Imagina, pobres que parcelam em 10 vezes no cartão nessas áreas, Narcisa?
Aqui nos meses de março e abril é uma beleza, uma enchente atrás da outra, que atinge as cidades da região serrana pra ser mais democrática, e quase nos destrói por completo. É assim desde sempre e nossos governantes não gostam de quebrar tradições, daí não ousam mexer nisso.
E jogamos lixo na rua , no chão, em qualquer lugar, que não necessariamente a lixeira, porque temos apreço pelo emprego do Gari, reflexo da nossa boa educação...sim, como 97% desse texto isso é suco de sarcasmo.
Somos obrigados a usar cinto de segurança em carro de passeio, mesmo no banco de trás, mas o busão segue lotado nas curvas da serra de Jacarepaguá ou do Alto da Boa Vista e tá de boa...sobrevivemos, quase sempre.
Ah...Isso a gente faz bem. Sobreviver. À violência sem que ninguém faz nada, (Ops, não, pera, agora podemos ter arma em casa, e tá tudo resolvido), Tiroteio em vias expressa, Arrastão na praia enquanto estamos relaxando, Assaltos feitos por crianças que deviam estar em escolas, Tiros quando voltamos pra casa, Buracos em vias públicas, poderes paralelos, Trânsito mal sinalizado e caótico.
Sobrevivemos à obras faraônicas para nada, tipo a ponte esteada da Ilha do Governador ou VLT que Crivella tentou desativar. 2347 obras por ano no Maracanã. Estação de Metrô que não deixa em lugar conveniente pra população. Obras inventadas temos aos montes. Despoluição da Baía de Guanabara nem ouvimos sobre. Pistas para ciclistas que funcionem sem risco de cair, também não.
Sigamos sobrevivendo num paraíso mal cuidado, violento, injusto, belo, sujo, sofrido, surrado, solar, agoniado e que, de teimoso, insiste em ser maravilhoso.

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